Por Ednelson Júnior
Antes de começar a crítica de hoje, quero deixar um aviso. Todos os textos enviados pelos colaboradores são lidos. E não tem spoiler. O último texto do Ed, muitos acharam que tinha spoiler, porque na história original já conta o que acontece com a menina no começo (no caso a Maggie). Falo isso, porque recebemos um desaforo grosseiro de uma pessoa na Página do Blog por causa de spoilers que por um fio não gerou uma briga, para evitar outro problema acabei colocando indicação. Spoiler é complicado de discutir. Tem gente que gosta, tem os que não gostam.Respeitam-se todos. E tenham o bom-senso de pensar no seguinte “o que é spoiler pra mim pode não ser para você” vice-versa. Todo e QUALQUER texto que nós acharmos que contém spoilers sempre foi e será indicado. Att, Helana.
“A verdadeira filosofia, segundo ele [Arthur Schopenhauer], é a que nos ensina a conhecer a essência do mundo, elevando-nos assim, acima dos fenômenos; ela não se pergunta de onde vem, para onde vai o mundo, nem por que ele existe, mas simplesmente o que ele é. Todas as outras questões são transcendentes; as formas e as funções da inteligência não podem servir a resolvê-las. A Inteligência é tão impotente a seu respeito, como a sensibilidade em face das qualidades dos corpos, cujo sentido nos falta.” (RIBEIRO JÚNIOR, 2004, p.7-8)
“Irrational Man” (Homem Irracional, 2015)
Título (tradução no Brasil): Homem Irracional
Ano: 2015
Duração: 95 minutos
Gênero: Drama, Suspense
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Sinopse: Em uma faculdade de uma pequena cidade, o professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) encontra-se em uma crise existencial, mas descobre um novo propósito na vida quando conhece uma de suas alunas (Emma Stone).
IMDb: clique aqui.
“Irrational Man” (Homem Irracional, 2015) é o mais recente filme do diretor Woody Allen, conhecido no âmbito cinematográfico pelos seus vários trabalhos nos quais assumiu a função de roteirista e diretor – imprimindo fortemente marcas idiossincráticas, características que podem ser enumeradas com relativa facilidade por qualquer cinéfilo que seja um admirador seu. Ademais, Allen também chegou a atuar em muitos dos seus longas-metragens, mas deixou de fazer isso há alguns anos. Portanto, Allen é um autêntico artista fílmico, alguém que se move com sagacidade tanto diante das câmeras quanto por trás delas. Em decorrência disso, eu, que já conheço o diretor e assisti a algumas de suas produções de distintos períodos (antes e depois do ano 2000), ao saber do lançamento de “Irrational Man”, fiquei curioso por descobrir com o que iria me encontrar, sobre que tipos de personagens e questões existenciais seriam apresentadas a mim.
Na trama, o fio condutor principal é Abe, um professor de Filosofia que está chegando em uma nova faculdade durante o período dos cursos de verão. Antes mesmo de chegar, uma fama e várias histórias sobre quem ele é circulam pelo campus, algumas das quais são mais incríveis – leia-se absurdas – do que outras. Nesse aspecto, já experimentamos uma das marcas de Allen como diretor, o humor. Um humor que flerta com situações que vão do risível ao trágico e, em alguns casos, apresentam um tom irônico. Paralelamente aos rumores iniciais – outros rumores sobre a vida do novo professor circulam no decorrer do filme –, descobrimos que Abe é um docente que procura a renovação em sua vida, uma mudança de ares. Não que ele realmente acredite que vai encontrar isso ou esteja fugindo de alguma coisa que o angustiava, ele apenas parece desejar conhecer um novo lugar, novas possibilidades. Ele é um personagem sarcástico, questionador e inquietante, sincero e, por isso, não faz muitas firulas para expressar os seus desconfortos diante de um contexto onde a vida é levada adiante sem que os viventes perguntem qual é o sentido disso.
A bússola da vida de Abe começa a mudar a direção quando ele conhece Jill (Emma Stone), uma de suas alunas que demonstra uma perspicácia intelectual, uma capacidade de superar a camada de mediocridade que – de acordo como exame do professor – envolve o mundo ao seu redor. Por meio desse contato, uma espécie de amizade vai se instalando entre eles, uma amizade tão sincera que Abe não hesita em permitir que Jill conheça mais sobre ele do que qualquer pessoa da universidade. Inclusive, descobrimos que, ao contrário do que os primeiros sinais poderiam indicar, Abe não foi sempre alguém introvertido, desiludido com a vida. Ele alega que já fez serviços humanitários, ajudando organizações não-governamentais em outros países, mas, depois de esforçar-se por algo que concebia como um mundo melhor, constatou que a ganância, o ódio e a crueldade humana tornavam qualquer projeto utópico algo mais desejável do que realizável. Esse é outro ponto suscitado na história, o contraste entre o que inúmeras filosofias propõem e o que a realidade nua e crua parece nos indicar como possível, concretizável. De certa forma, “Irrational Man” faz uma crítica à “masturbação verbal” tão difundida em nossa sociedade e, principalmente, nos espaços acadêmicos e provoca-nos a pensar na possibilidade de tomarmos decisões mais autênticas, agir realmente com energia e não nos arrastar pelos dias reproduzindo discursos já ditos até a exaustão.
Desse contato entre Abe e Jill, um acaso fundamental para a trama é gerado. Ambos estão em uma lanchonete, conversando sobre Filosofia, quando ouvem a conversa de pessoas que estão próximas à mesa deles. Rapidamente, eles descobrem que o diálogo dos desconhecidos tem como assunto a disputa judicial de uma mulher contra o seu ex-esposo pela guarda de seus dois filhos pequenos, os quais não seriam bem tratados pelo pai. A única chance dela ganhar a guarda dos filhos seria se o juiz fosse trocado, entretanto, ela não dispõe de meios para conseguir isso. Contudo, Abe, ponderando sobre o quanto permitir que essa mãe perdesse a guarda dos filhos porque foi julgada por um juiz corrupto representaria um ato moralmente reprovável, toma uma decisão secretamente: assassinar o juiz. Daí em diante, Abe começa a planejar os mínimos detalhes sobre como obter o êxito em seu empreendimento. Todo o estratagema, o delinear do plano, fazem pensar em clássicas histórias de detetive, o que não soa forçado, tendo em consideração a formação do personagem Abe e as constantes referências e influências literárias nas obras de Woody Allen.
Executado o plano, Abe começa a experimentar a vida com maior ardor. Segundo ele, isso deu um sentido para a sua existência, fez com que ele tivesse um propósito maior. Como consequência, toda a sua vida passa a ser mais movimentada, gozando de uma felicidade esbanjada em sorrisos a torto e a direito e comentários com um teor levemente mais otimistas. Ademais, não demora muito até que ele assuma uma relação com Jill. No contexto de crises amorosas, temos outra temática recorrente dos filmes de Woody Allen. Apesar de ser um tema recorrente, o diretor sempre consegue trazê-lo à tona de uma forma natural, sem parecer um dramalhão, nunca o força simplesmente por ser algo que se consagrou como uma “assinatura” sua. De uma forma que soa frequentemente como melancólica, Allen consegue trabalhar todas as paletas de cores de uma relação amorosa, indo do paraíso ao inferno, do bônus aos eventuais ônus de qualquer laço entre seres humanos, formas de vida cujos comportamentos não são sempre previsíveis ou dotados de um significado claro, considerando a perspectiva de um mundo que fosse regido apenas pela razão, onde cada coisa teria o seu devido lugar. Contudo, sabemos que a nossa condição de existência envolve tanto a razão quanto a emoção e, em muitas situações, a segunda tem um poder de influência maior.
Em meio a uma grande onda de sorte, infelizmente, o intelecto admirável de Abe culmina em uma conduta pretensiosa e desleixada, demonstrando uma faceta narcisista de sua persona, subestimando a todos ao seu redor, soltando pequenas peças do seu engenho sombrio em diversas situações que não tendiam a ficarem juntas, mas que, por um revés da fortuna do protagonista, acabam se encaixando por uma série de pequenos acasos. A forma como acasos regem a vida humana, gerando efeitos de pequena ou grande escala, tanto para o nosso prazer quanto para o nosso desprazer, é outros dos assuntos apreciados por Allen. Inclusive, como grandes nomes da Literatura sabem fazer – como Machado de Assis, um escritor que aprecio bastante –, o enredo desse filme é esplêndido, tudo é orquestrado para uma perfeita sinfonia. Cada diálogo e cada cena desempenha uma função na narrativa, mesmo que (dentro do mundo ficcional) seja manifestação de um acaso – isso foi uma coisa que fez com que eu me recordasse dos Formalistas Russos e as suas teorias sobre os motivos livres e os motivos associados, assunto que vi em Teoria da Literatura I. Considerando isso, “Irrational Man” é um filme cujo desfecho realmente surpreende e que nos permite ver o quanto cada coisa foi planejada com minúcia. Paradoxalmente, uma história em que o enredo forma uma teia que interliga tudo fala de forma fantástica sobre o acaso e o seu imenso poder, fazendo-nos, talvez, rir.
No final das contas, Abe é aquele impulso que personagens como Jill precisava para saír de suas zonas de conforto, experimentando um pouco mais de sentimentos verdadeiros e deixando um pouco de lado a fria razão, incapaz de dar conta de toda a complexidade do que é viver – fazer coisas que nos deixem extasiados e amar sem receios (independentemente de quem escolhemos amar). A fotografia do filme é belíssima, compondo uma atmosfera bucólica, e a trilha sonora, completamente instrumental, também merece elogios, mas o maior espetáculo ficou com a parte visual. Como falei antes, alguns objetos de reflexão do Woody Allen se repetem em “Irrational Man”, o que faz com que, quem já o conhece, tenha a sensação de estar vendo a repetição de tipos de personagens já explorados antes – o homem intelectual e melancólico; a jovem sonhadora, porém temerosa e ansiosa; o jovem classe média e um tanto apático, pouco enérgico ou disposto a lutar por algo, sempre transitando pelo que é completamente previsível; a mulher de meia-idade que permanece em uma situação por ser conveniente, mesmo sendo indesejada etc. Contudo, como algumas coisas na vida, Allen consegue divertir e fazer pensar mesmo quando não apresenta a sua melhor forma. Em suma, indico “Irrational Man” para quem quer assistir a algo que apresenta intertextualidade com questões filosóficas de forma muito honesta, sem floreios, e entretém com o seu humor peculiar, nas entrelinhas, ainda que esta não seja realmente uma das comédias de Woody Allen. Bom café e bom filme.
REFERÊNCIA
RIBEIRO JÚNIOR, João. Introdução a Nietzsche: o Dionisios filósofo. Campinas: Edicampo, 2004.
Ednelson Júnior ou simplesmente “Ed”
Para terminar votem na próxima crítica do Cinema e Café. Qual filme gostariam de ler uma crítica no blog?
| "Ednelson Júnior ou simplesmente “Ed”. Estudante de Letras, cuja pesquisa principal é sobre narrativas pós-apocalípticas com zumbis. Humorista de piadas sem graça, mas que fazem rir por causa de algum motivo desconhecido. Alguém que busca sempre traçar os seus planos, mas reconhece que estar aberto a momentos de inesperada alegria é essencial para viver. Gosta de cinema, literatura (de Homero a Stephen King e muitos outros escritores – nacionais e estrangeiros), pintura, teatro, música, fotografia etc. Enfim, um ser humano (ou não...). |




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